segunda-feira, 6 de abril de 2015

Vinagre de folha de pareira (internet)

VINAGRES DE FOLHAS DE VIDEIRA: ASPECTOS SENSORIAIS

GRAZIELE GUIMARÃES GRANADA *

CARLA ROSANE BARBOZA MENDONÇA **

VANESSA PIRES ROSA ***

RUI CARLOS ZAMBIAZI ****
Três diferentes formulações de vinagre de folhas de

videira foram elaboradas, mantendose

a proporção

de folhas e água, e variandose

a concentração da

sacarose. Realizouse

análise sensorial das

formulações, segundo os atributos aparência geral,

cor, odor, sabor geral e acidez, além de análise

química de acidez titulável. Vinagres comerciais de

vinho branco e vinho tinto foram utilizados como

padrões. Concluiuse

que somente a formulação

com maior teor de sacarose apresentou

porcentagem de ácido acético de acordo com os

padrões recomendados para tais produtos.

Considerando a avaliação sensorial, duas

formulações não diferiram significativamente dos

vinagres comerciais.

1 INTRODUÇÃO

A importância do vinagre na alimentação decorre de suas inúmeras formas

de utilização, ou seja, como condimento, conferindo sabor ácido aos

alimentos em que é adicionado; como conservante, evitando o crescimento

de fungos, especialmente em pães e vegetais; sendo bastante útil como

agente amaciante de carnes temperadas e legumes em conservas. Além

disso, é muito empregado como agente de limpeza, devido sua ação

bactericida.

O vinagre pode ser preparado a partir de solução contendo açúcar e

nutrientes, que proporcionem fermentação alcoólica seguida de acética.
* Nutricionista, Mestranda em Ciência e Tecnologia Agroindustrial, Universidade

Federal de Pelotas (UFPEL).

** Economista Doméstica, Mestre em Ciência e Tecnologia Agroindustrial, UFPEL

(email:

sidcar@ufpel.tche.br).

*** Aluna do Curso de Química de Alimentos, Faculdade de Ciências Domésticas,

UFPEL.

**** Professor, Doutor em Food in Nutritional Science, Departamento de Ciência dos

Alimentos, Faculdade de Ciências Domésticas, UFPEL.

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Definido como solução diluída de ácido acético, contendo ingredientes

solúveis, suas características dependem da matériaprima,

que pode ser

obtida de vinho, frutos maduros, material rico em amido, melaço ou caldo

de cana, aguardente, álcool, folhas de videira, etc. (OLIVEIRA et al., 1989;

KARASZ, BENASSI & CECCHI, 1998). A industrialização de alimentos

pode contribuir de maneira marcante para o incentivo e estabilização da

produção agrícola, permitindo aproveitamento de excedentes e gerando

novas fontes de renda ao produtor (OLIVEIRA et al., 1987).

Nas pequenas propriedades rurais do Rio Grande do Sul, grande parte da

uva é utilizada apenas para consumo de mesa, mesmo sendo este Estado

um dos maiores produtores de uva em nível nacional. Desta forma, a

utilização das folhas de videira constituíse

em alternativa acessível, para a

obtenção artesanal de vinagre, o qual pode ser utilizado na área rural ou

até mesmo comercializado, como forma de aumentar a renda familiar nas

pequenas propriedades rurais (CONCEIÇÃO & ZAMBIAZI, 1999).

O presente trabalho teve como objetivo elaborar vinagres a partir de folhas

de videira, caracterizálos

sensorialmente e comparálos

com vinagres

comercias.
2 MATERIAL E MÉTODOS

2.1 MATERIAL

Para elaboração dos vinagres foram utilizadas folhas de videira (safra

98/99), da região de Pelotas/RS, e sacarose comercial, sendo empregados

como padrões vinagres de vinhos branco e tinto de qualidade comercial.

2.2 PROCESSO DE ELABORAÇÃO DOS VINAGRES

Foram elaboradas 3 diferentes formulações de vinagre, utilizandose

folhas

de videira, açúcar e água nas proporções: 2:1:2(A); 1:1:1(B); e 2:3:2(C),

respectivamente. Inicialmente as folhas de videira foram selecionadas,

lavadas, escorridas e colocadas nas respectivas caldas, preparadas com

água fervida e resfriada até temperatura de 28 °C. Após a mistura em

recipientes plásticos, previamente higienizados com água quente e álcool,

as folhas foram maceradas manualmente, cobrindose

os recipientes com

tecido de algodão. O processo fermentativo desenvolveuse

ao longo de 60

dias, em ambiente sem incidência direta de luz solar. Ao final da

fermentação o produto foi filtrado em tecido de algodão, envasado em

embalagens de vidro com capacidade de 500 mL, previamente

esterilizadas e fechadas com rolhas de cortiça. Após o envase o produto foi

pasteurizado a temperatura de 80 ºC em banhomaria,

resfriado com água

e armazenado a temperatura ambiente.
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2.3 ANÁLISES

Os vinagres foram avaliados quanto aos seguintes atributos sensoriais:

aparência geral, cor, odor, sabor geral e acidez, por uma equipe de 10

julgadores treinados (ABNT, 1993). Utilizouse

método comparativo,

mediante escala não estruturada de 9 cm, tendo como extremos os termos

característico e não característico de acordo com a ABNT (1998). As

amostras foram apresentadas aos julgadores a temperatura ambiente,

utilizandose

como veículo para degustação folhas de alface colocadas em

copos descartáveis. Para avaliação do odor foram usados tubos opacos

com tampas removíveis e para aparência e cor potes de porcelana, todos

codificados com 3 dígitos aleatórios.

Determinouse

acidez titulável das amostras conforme procedimentos

indicados nas normas analíticas do Instituto Adolfo Lutz (1985),

expressando o resultado em % de ácido acético.

2.4 DELINEAMENTO ESTATÍSTICO

Os resultados foram avaliados pela análise de variância (ANOVA) e os

valores que mostraram diferença significativa nas médias foram

complementados pelo teste de Duncan, todos ao nível de 5% de

probabilidade, pelo programa Statistica 5.1.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

A Tabela 1 apresenta os resultados obtidos na avaliação sensorial das

formulações de vinagre elaboradas e dos vinagres comerciais, além do

teor de acidez dos mesmos.

Constatouse,

a partir da determinação de acidez titulável, que o vinagre

que apresentou maior percentual de ácido acético foi o vinagre comercial

de vinho branco e o de menor concentração em ácido acético o vinagre

elaborado segundo as proporções da formulação A. Este resultado foi

confirmado pela avaliação sensorial, pois os julgadores detectaram

diferenças significativas entre as formulações, não só em termos de

acidez, como também, em termos de sabor geral, aparência geral e cor,

especialmente, entre o vinagre de vinho branco e a formulação A. Segundo

CARVALHO et al. (1998) a qualidade sensorial dos alimentos é cada vez

mais importante, e neste sentido, a difusão comercial e a aceitação dos

produtos deve embasarse

no conhecimento de suas propriedades

sensoriais, as quais contribuem para valorizar e proteger a genuinidade

destes produtos. Neste contexto, as técnicas de análise sensorial

assumem papel relevante, pois, somente os sentidos humanos, paladar,
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TABELA 1 CARACTERÍSTICAS

SENSORIAIS E ACIDEZ TITULÁVEL

DOS VINAGRES ELABORADOS A PARTIR DE FOLHAS

DE VIDEIRA E VINAGRES COMERCIAIS

Vinagres

1 2 3 4 5

Aparência Geral 2,5a 4,9ab 4,9ab 5,6b 5,7b

Cor 2,7a 5,2ab 5,2ab 6,1b 6,1b

Odor 2,8a 4,1a 4,2a 4,2a 4,6a

Sabor 3,6a 4,2ab 4,6ab 6,8b 5,0ab

Acidez 2,0a 5,6c 6,0bc 7,8b 6,6bc

Acidez Titulável

(% ácido acético)

1,08a 3,17b 4,21c 4,58d 3,88e
1 Formulação A (2:1:2; folha de videira:açúcar:água);

2 Formulação B (1:1:1; folha de videira: açúcar:água);

3 Formulação C (2:3:2; folha de videira:açúcar:água);

4 Vinagre comercial de vinho branco;

5 Vinagre comercial de vinho tinto.



Letras diferentes na mesma linha evidenciam diferença significativa ao nível de 5% de probabilidade

pelo teste de Duncan (p < 0,05).

olfato, visão e tato são capazes de avaliar as características

multidimensionais dos alimentos. A análise sensorial dos alimentos deixou

de ser atividade secundária e empírica, enquadrandose

na categoria de

disciplina científica, capaz de gerar informações precisas e reprodutíveis,

sobre as quais recaem importantes decisões acerca da seleção das

matériasprimas,

das modificações e padronizações de métodos e da

otimização de formulações para o desenvolvimento de novos produtos

(STONE & SIDEL, 1993; MORALES, 1999). Considerando os resultados

de acidez titulável, as formulações A e B não foram satisfatórias para

possibilitar a fermentação do substrato e produzir vinagre com

concentração mínima de 4% de ácido acético, conforme estabelecido pela

legislação brasileira (MORETTO et al., 1988). Constatouse

também que o

vinagre comercial de vinho tinto apresentou acidez inferior a 4%, estando

portanto, abaixo do padrão estabelecido pela legislação.

De acordo com os dados obtidos (Tabela 1) podese

verificar que, segundo

os atributos sensoriais avaliados, as formulações B e C não apresentaram

diferenças significativas entre si, ao nível de 5% de probabilidade. Também

não diferiram significativamente dos vinagre comerciais utilizados como

padrões, exceto em termos de acidez sensorial entre a formulação B e o

vinagre de vinho branco (p = 0,044). Observouse

similaridade destas duas

formulações com os vinagres comerciais, quanto às características

sensoriais.
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Na avaliação dos atributos, aparência geral, cor, odor, sabor e acidez, as

formulações B e C foram consideradas entre as descrições como

moderadamente a muito característica a vinagre, tendo recebido valores

médios entre 4,1 e 6,0, para todos os atributos sensoriais. Para o mesmo

conjunto de atributos a formulação A recebeu dos julgadores valores

médios entre 2,0 e 3,6, enquadrandose

nas descrições das fichas de

avaliação entre levemente à moderadamente característica a vinagre.
4 CONCLUSÃO

O percentual de ácido acético dos vinagres foi diretamente proporcional a

acidez sensorial, exceto para o vinagre comercial de vinho tinto.

As formulações B e C não diferiram significativamente entre si, quanto aos

atributos sensoriais.

Somente a formulação C produziu vinagre com percentual de ácido acético

suficiente para atender a exigência da legislação brasileira.

Segundo os atributos sensoriais (aparência geral, cor, odor e sabor geral),

os vinagres de videira das formulações B e C são similares aos vinagres

comerciais de vinho branco e vinho tinto.
Abstract

Three different vinegar formulations from grapevine leaves were elaborated, maintaining

the waterleaves

rate and varying the saccharose concentration. Sensory evaluation of the

formulations was realized by the characteristics: general appearance, color, odor, general

taste and acidity, in addition to chemical analysis of titratable acidity. It was employed

commercial vinegars of white wine and red wine, as standards. It was concluded that only

the formulation with higher saccharose rate showed acetic acid percentage within the

recommended level for this products, however, two of the formulations tested did not differ

meaningfully from commercial vinegars.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 ABNT. Métodos de análise sensorial dos alimentos e bebidas,

NBR 12994. São Paulo, 1993. 2 p.

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bebidas, NBR 14141. São Paulo, 1998. 3 p.



56 B.CEPPA, Curitiba, v. 18, n. 1, jan./jun.2000

3 CARVALHO, H.H., JONG, E.V., SOUZA, R.B., PEREIRA C.

Desenvolvimento de produtos para fins especiais: dietéticos e

baixas calorias. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIA E

TECNOLOGIA DE ALIMENTOS, 16., 1998, Rio de Janeiro.
Anais... Rio de Janeiro : Sociedade Brasileira de Ciência e


Tecnologia de Alimentos, 1998. p. 605608.
4 CONCEIÇÃO, R, ZAMBIAZI, R.C. Elaboração de vinagre a partir

de folhas de videira. Pelotas, 1999. 37 p. Trabalho Científico


de Estágio (Graduação em Economia Doméstica), Faculdade de

Ciências Domésticas, UFPEL.
5 INSTITUTO ADOLFO LUTZ. Normas analíticas do Instituto

Adolfo Lutz. 2.ed. São Paulo, 1985. 371 p.


6 KARASZ, P., BENASSI, M.P., CECCHI, H.M. Caracterização de

vinagres brancos de diferentes procedências. In: CONGRESSO

BRASILEIRO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE ALIMENTOS,
16., 1998. Anais... Rio de Janeiro : Sociedade Brasileira de


Ciência e Tecnologia de Alimentos, 1998.
7 MORALES, H.R. Informações sobre Simpósio Iberoamericano de

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kcipolli@bacchus.ital.org.br).

8 MORETO, E., ALVES, R., CAMPOS, C., ARCHER, R., PRUDÊNCIO,
A. Vinhos e vinagres. Florianópolis : Ed. da UFSC, 1988. 167


p.
9 OLIVEIRA, J. et al. Produção de vinagre e álcool à partir de frutos

tropicais excedentes de safra. Boletim CEPPA, Curitiba, v. 5, n.


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jan./jun. 1987.
10 OLIVEIRA, J. et al. Produção de vinagre de manga (Mangífera

indica, L.) e verificação da viabilidade técnica e econômica do

projeto. Boletim CEPPA, Curitiba, v. 7, n. 1, p. 4552,


jan./jun.

1989.
11 STONE, H., SIDEL, J.L. Sensory evaluation practices. 2. ed.


Florida : Academic Press, 1993. 338 p.

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